Literatura Futebol Clube

As semelhanças entre a literatura e o futebol são poucas, se é que existe alguma. O gol de letra talvez seja o momento em que as duas atividades que despertam a paixão em tanta gente estejam mais próximas.  Há muitos jogadores que mal sabem falar, que dirá escrever. Literatura então, muito difícil. É claro que sempre há um Sócrates – o jogador – para confirmar a regra sendo dela a exceção. E imaginar os maiores escritores do planeta num campo de futebol também não resultaria em uma partida digna de plateia, apesar de o poeta João Cabral de Melo Neto ter sido campeão juvenil pelo Santa Cruz – outra exceção que confirma a regra.

Mas nada impede que escalemos um time formado apenas por grandes escritores, que não fariam feio nos gramados se pudessem transformar suas habilidades artísticas em habilidades futebolísticas. Para que o time tivesse representantes de diversos lugares, ficou convencionado por este autor que cada um dos escalados viria de um país diferente.

Todo bom time de futebol começa com um bom goleiro, é o que dizem os especialistas. Nossa equipe de escritores, portanto, teria dentro da pequena área ninguém menos que Fiodor Dostoievski, um legítimo representante da excelente escola russa de goleiros que já revelou craques como Dassaiev e o lendário Lev Yashin, o Aranha Negra. Dostoievski teria a envergadura necessária para fechar o gol, literalmente.

Jamais um time de literatos entraria em campo para ficar na retranca. O esquema tático adotado seria o 4-3-3, com apenas um volante com liberdade para chegar ao ataque. O miolo da zaga seria composto por um americano – eles podem não entender de futebol, mas de literatura… – mais experiente e um argentino admirador da obra de seu companheiro de zaga.  Sempre é bom ter um zagueiro argentino, diga-se de passagem.

Edgar Allan Poe seria o beque central, terror para qualquer atacante. A quarta zaga ficaria com Jorge Luís Borges, que não precisaria nem fechar o olho para dar uma botinada para frente, se fosse preciso. As laterais necessitariam de escritores de fôlego para garantir o apoio ao ataque e o retorno à zaga. Pela direita, falando a mesma língua que Poe, teríamos William Shakespeare. Na esquerda, Miguel de Cervantes faria par com Borges. Na frente do sistema defensivo, o volante Charles Baudelaire daria proteção com seu ar sinistro e também sairia para o ataque com toda a classe.

O meio campo teria dois cérebros falando a mesma língua. Na meia esquerda, José Saramago e sua criatividade infinita. E na meia direita o mestre Machado de Assis, maestro da equipe, driblando todas as dificuldades e, com sua ironia fina, municiando um ataque genial, porém, genioso.

Na ponta direita, com suas invenções e dribles literários, James Joyce confundiria até os próprios companheiros.  Na ponta esquerda, a mania de perseguição incontrolável de Franz Kafka o tornaria absolutamente “imarcável”.  Ítalo Calvino completaria o trio, trazendo ao ataque, formado por tcheco e um irlandês, à experiência futebolística da Itália.

Haveria, é claro, críticos a profetizar um fracasso retumbante de um ataque em que um escreve em inglês, o outro em alemão e o terceiro em italiano. Torcedores reclamariam: “Goethe não foi escaldo?” ou “Levaram Baudelaire e deixaram Zolá e Balzac, que absurdo!” ou “Poe é um alcoólatra, vai cair no dopping. Faulkner no lugar dele e com a faixa de capitão!” ou ainda “Saramago não tem visão de jogo, escala o Pessoa!”.

O fato é que, reclamações a parte, esse time jogaria, paradoxalmente, por música.

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Uma música pra chamar de minha

TÃO SEU Sinto sua falta / Não posso esperar tanto tempo assim / O nosso amor é novo / É o velho amor ainda e sempre / Não diga que não vem me ver / De noite eu quero descansar / Ir ao cinema com você / Um filme à tôa no Pathé / Que culpa a gente tem de ser feliz / Que culpa a gente tem, meu bem / O mundo bem diante do nariz / Feliz aqui e não além / Me sinto só, me sinto só / Me sinto tão seu / Me sinto tão, me sinto só / E sou teu / Faço tanta coisa / Pensando no momento de te ver / A minha casa sem você é triste / A espera arde sem me aquecer / Não diga que você não volta / Eu não vou conseguir dormir / À noite eu quero descansar / Sair à tôa por aí ||Skank||

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