Que horas ela volta?

Como a maioria dos brasileiros– que não têm tanto dinheiro assim para ir ao cinema sempre que gostaria ou não têm a oportunidade de assistir filmes nacionais que não sejam comédias, pois eles não entram em cartaz nas pequenas e médias cidades –, assisti ontem à noite o filme “Que Horas Ela Volta?”, dirigido por Anna Muylaert e protagonizado por Regina Casé, que tem como foco a relação entre uma família de classe alta e uma empregada doméstica. Essa relação é desestabilizada pela filha jovem da empregada, que chega do nordeste para fazer um vestibular, e passa uns dias na casa da família onde a mãe trabalha e mora.

Como estou atrasado em relação aos críticos do resto do país e nem mesmo sou crítico, não quero falar sobre os detalhes cinematográficos do filme – já questionaram a escalação da atriz carioca para o papel de nordestina, apontaram certo didatismo na repetição das cenas em que a empregada se limita perímetro da cozinha e mais alguns “defeitos”. Enfim, os críticos já fizeram o papel de criticar.

Também não quero falar sobre a questão temática do filme. Há quem diga que o filme peca fazer certa apologia à meritocracia, quando mostra os estudos e o vestibular como uma possibilidade de redenção dos mais pobres. Por outro lado, outros criticam o maniqueísmo que põe os ricos de um lado – representando tudo o que há de ruim – e os pobres do outro – no papel de vítimas da opressão. Talvez todas as críticas tenham um tanto de exagero e outro tanto de pertinência, um pouco de complacência e o resto de implicância.

Não quero criticar nada, quero falar sobre outra coisa. A personagem vivida por Regina Casé, a empregada doméstica Val, vive mergulhada num universo em que as injustiças cometidas contra ela já estão internalizadas – ela considera natural ser uma “cidadã de segunda categoria” dentro daquele contexto.

A chegada da filha, Jéssica, com uma bagagem cultural diferente, moldada pelo ensino formal na escola pública e por um professor que dá “outra visão do mundo” aos alunos não é suficiente para que a mãe mude de postura e também ela passe a questionar a atitude dos patrões.

Os “discursos” da filha, que afirmam que não há uma lei que determine que a empregada não pode comer na mesma mesa do patrão, não são suficientes para acionar o botão que implicará em uma mudança na ação de Val.

O entendimento de Val só muda quando Jéssica é destratada pelos patrões. Somente quando a empregada percebe os direitos da filha sendo atacados é que ela decide que algo precisa ser diferente. Tal situação me fez lembrar da dedicatória que o mestre Paulo Freire faz em seu clássico “Pedagogia do Oprimido”:

“Aos esfarrapados do mundo e aos que neles se descobrem e, assim descobrindo-se, com eles sofrem, mas, sobretudo, com eles lutam”.

Usando ainda o pensamento de Paulo Freire, posso dizer que o filme de Muylaert demonstra como essa ideia utilizada pela educação brasileira de depositar no aluno os conhecimentos que ele necessita para se emancipar é equivocada. Esse depósito de conhecimento cria a dependência daquele que deposita e não tem a força suficiente para mudar a prática.

A escola deve mostrar aos estudantes que o mundo é mais ou menos como aquela casa onde Val trabalha. A escola não deve ser apenas um cantinho acolhedor, verdadeiro depósito de crianças e adolescentes, mas um lugar que apresente aos alunos todas as dificuldades que eles hão de enfrentar para sobreviver a um mundo especializado em gerar sofrimento. Ali, na escola, eles devem encontrar pessoas que se solidarizem com suas angústias, que “neles se descubram” e que se tornem companheiras na construção de um amanhã menos sombrio para todos nós.